O seu santo nome
Não facilite com a palavra amor.
Não a jogue no espaço, bolha de sabão.
Não se inebrie com o seu engalanado som.
Não a empregue sem razão acima de toda razão (e é raro).
Não brinque, não experimente, não cometa a loucura sem remissão
de espalhar aos quatro ventos do mundo essa palavra
que é toda sigilo e nudez, perfeição e exílio na Terra.
Não a pronuncie.

Missa
Gestos soam falsos
no altar sem sentido
Velas não transmitem
presenças eternas
(Deus não está comigo
na Missa a que assisto)
Deus
se esconde bem
no olhar da criança
e no coração
daqueles que não rezam mais.

Dorme
dorme a casa
dorme a crase
dorme a asa da borboleta.
numa metamorfose
tão exata
dorme a letra ilegível.
dorme a arroba e a rota,
o doze e a dúzia,
dorme o artigo indefinido.
dorme a água do aquário,
dorme o vaso sanitário,
e o vocabulário indizível.
dorme o fóssil, pra lá de antigo,
o agora e
o minuto além.
dorme aquiles, o mito,
e aqueles que muitos
chamam ninguém.
dorme alice e o lustre,
a tinta e a paleta
neste verso dormidouro.
dorme o infinito sem conceito -
um dormir tão perfeito
que parece até poesia!
dorme a canção,
dorme a liturgia
dorme a cor e a alegoria.
dorme aquela velha alegria
que triste se apega
e do paradoxo não larga.
dorme tudo;
desde o raso até o fundo:
como um defunto.
dorme o lodo na calçada,
a vaca atolada,
o outro lado da rua...
dorme a flor dilacerada
e, mesmo o medo,
dorme tranqüilo.
dorme isto, essa e aquilo:
toda grama e
centímetro
a libra,
o zêlo
e o gemido desmedido.
dorme o esquilo
na paisagem americana e
a lua no céu de araraquara.
dorme o vento,
o assentamento
e a arara
o sono dos justos,
dormem marte e
o deserto do saara.
apenas eu insisto
diuturnamente
acordado
visto ser
impossível dormir
sem você ao meu lado.

Nunca ninguém sabe se estou louco para rir ou para chorar
Pois o meu verso tem essa quase imperceptível tremor...
A vida é louca, o mundo é triste:
vale a pena matar-se por isso?
Nem por ninguém!
Só se deve morrer de puro amor!
Imagem: Robert Cannon

Os que Vinham da Dor
Os que vinham da Dor tinham nos olhos
estampadas verdades crudelíssimas.
Tudo que era difícil era fácil
aos que vinham da Dor diretamente.
A flor só era bela na raiz,
o Mar só era belo nos naufrágios,
as mãos só eram belas se enrugadas,
aos olhos sabedores e vividos
dos que vinham da Dor diretamente.
Os que vinham da Dor diretamente
eram nobres de mais p'ra desprezar-vos,
Mar azul!, mãos de lírio!, lírios puros!
Mas nos seus olhos graves só cabiam
as verdades humanas crudelíssimas
que traziam da Dor diretamente.
Imagem:Raymond Borg

Medos de criança
Dentro dessa calma que eu simulo
mora um desespero mudo,
mas agudo
como medos de criança.
Tanto a solidão quanto o escuro,
a dúvida de se é seguro
fechar os olhos e não ver
o que está acontecendo
por detrás dos altos muros
onde vão se escondendo
a inocência
e a plenitude de tentar com paciência.
Imagem:Bozena Bnitka

"Provocation"

Era o fim
do fio da linha.
era enfim,
o mais dolorido
espinho
ungido pelas mãos
de um anjo ruim:
- a vida sozinha
outra vez.
era a amargura
do inverno,
e seus indeléveis
reveses,
despetalando silêncios.
salmoura de desertos
sobre tão ternos afetos,
(o inverso de deus
em uma lua doente).
era a madrugada
a desabençoar,
de todo,
o sempre agosto.
e o vento maldito
da saudade
colhendo sombras
em meu dorso.
Imagem: Christel Eldrim

“…Que minha solidão me sirva de companhia.
que eu tenha a coragem de me enfrentar.
que eu saiba ficar com o nada
e mesmo assim me sentir
como se estivesse plena de tudo.”