Carlos Drummond de Andrade





O seu santo nome

Não facilite com a palavra amor.
Não a jogue no espaço, bolha de sabão.
Não se inebrie com o seu engalanado som.
Não a empregue sem razão acima de toda razão (e é raro).
Não brinque, não experimente, não cometa a loucura sem remissão
de espalhar aos quatro ventos do mundo essa palavra
que é toda sigilo e nudez, perfeição e exílio na Terra.
Não a pronuncie.



Mauro Salles





Missa

Gestos soam falsos
no altar sem sentido
Velas não transmitem
presenças eternas
(Deus não está comigo
na Missa a que assisto)

Deus
se esconde bem
no olhar da criança
e no coração
daqueles que não rezam mais.




Impossible Pictures







Marcos Caiado





Dorme

dorme a casa
dorme a crase
dorme a asa da borboleta.

numa metamorfose
tão exata
dorme a letra ilegível.

dorme a arroba e a rota,
o doze e a dúzia,
dorme o artigo indefinido.

dorme a água do aquário,
dorme o vaso sanitário,
e o vocabulário indizível.

dorme o fóssil, pra lá de antigo,
o agora e
o minuto além.

dorme aquiles, o mito,
e aqueles que muitos
chamam ninguém.

dorme alice e o lustre,
a tinta e a paleta
neste verso dormidouro.

dorme o infinito sem conceito -
um dormir tão perfeito
que parece até poesia!

dorme a canção,
dorme a liturgia
dorme a cor e a alegoria.

dorme aquela velha alegria
que triste se apega
e do paradoxo não larga.

dorme tudo;
desde o raso até o fundo:
como um defunto.

dorme o lodo na calçada,
a vaca atolada,
o outro lado da rua...

dorme a flor dilacerada
e, mesmo o medo,
dorme tranqüilo.

dorme isto, essa e aquilo:
toda grama e
centímetro

a libra,
o zêlo
e o gemido desmedido.

dorme o esquilo
na paisagem americana e
a lua no céu de araraquara.

dorme o vento,
o assentamento
e a arara

o sono dos justos,
dormem marte e
o deserto do saara.

apenas eu insisto
diuturnamente
acordado

visto ser
impossível dormir
sem você ao meu lado.



Antonio Giusti







Mario Quintana






Nunca ninguém sabe se estou louco para rir ou para chorar
Pois o meu verso tem essa quase imperceptível tremor...
A vida é louca, o mundo é triste:
vale a pena matar-se por isso?
Nem por ninguém!
Só se deve morrer de puro amor!


Imagem: Robert Cannon



Sebastião da Gama





Os que Vinham da Dor

Os que vinham da Dor tinham nos olhos
estampadas verdades crudelíssimas.
Tudo que era difícil era fácil
aos que vinham da Dor diretamente.

A flor só era bela na raiz,
o Mar só era belo nos naufrágios,
as mãos só eram belas se enrugadas,
aos olhos sabedores e vividos
dos que vinham da Dor diretamente.

Os que vinham da Dor diretamente
eram nobres de mais p'ra desprezar-vos,
Mar azul!, mãos de lírio!, lírios puros!
Mas nos seus olhos graves só cabiam
as verdades humanas crudelíssimas
que traziam da Dor diretamente.


Imagem:Raymond Borg



Christel Eldrim








Isolda Herculano





Medos de criança

Dentro dessa calma que eu simulo
mora um desespero mudo,
mas agudo
como medos de criança.

Tanto a solidão quanto o escuro,
a dúvida de se é seguro
fechar os olhos e não ver
o que está acontecendo

por detrás dos altos muros
onde vão se escondendo
a inocência
e a plenitude de tentar com paciência.


Imagem:Bozena Bnitka



Marcos Caiado







Era o fim
do fio da linha.
era enfim,
o mais dolorido
espinho
ungido pelas mãos
de um anjo ruim:

- a vida sozinha
outra vez.

era a amargura
do inverno,
e seus indeléveis
reveses,
despetalando silêncios.

salmoura de desertos
sobre tão ternos afetos,
(o inverso de deus
em uma lua doente).

era a madrugada
a desabençoar,
de todo,
o sempre agosto.

e o vento maldito
da saudade
colhendo sombras
em meu dorso.


Imagem: Christel Eldrim



Clarice Lispector






“…Que minha solidão me sirva de companhia.
que eu tenha a coragem de me enfrentar.
que eu saiba ficar com o nada
e mesmo assim me sentir
como se estivesse plena de tudo.”