Saramar Mendes





Quando te perdi,
desandei a falar de amor,
falar com cachorro, com a lua,
inventei de plantar flor.
Quanto te perdi,
dei pra andar no frio
provocando o arrepio
de que não me lembrava mais.
Dei conselho, que loucura,
esqueci o chá de tília
que eu nem conhecia
e me voltei pra cachaça
coisa apropriada à minha raça
de gente sozinha e infeliz.
Quando te perdi,
eu me amava na noite,
com uma ânsia inútil
como a desses amantes
que dormem embaixo da lua
olhando a janela impossível
do seu impossível amor.
Mas parei de andar na rua,
quando te perdi.
É que me deu uma fome da morte
e todas aquelas rodas rolando
eram um canto me chamando
não quis abusar da sorte.
Quando te perdi,
quebrei meus espelhos
pra não ver a única imagem
e a minha boca fria.
Mas, quando te perdi,
de tanto amanhecer que assisti,
dei de imitar o sol
e a cada dia, que loucura,
eu também amanhecia,
e fui me aquecendo
por ver tudo vivendo
e vi que morrer não iria.
Depois que te perdi,
andei pelo dia inteiro,
era noite... amadruguei.
Agora vivo as horas sob o sol
e, você nem imagina,
troquei até a cortina
que me ajudava a te esperar.
Agora, vivo desperta,
janelas e portas abertas
para outro sol entrar.



Imagem: Chaukim

8 comentários:

  1. Muito,muito bonito. Um prazer enorme postar seus versos, amiga.
    Léo

    ResponderExcluir
  2. É sempre bom

    ter portas abertas

    janelas escancaradas

    dá para entrar e sair

    ResponderExcluir
  3. Sara querida, parabéns, vc tem inspiração celeste...
    Lindo demais.... bjs do ZC

    ResponderExcluir
  4. Anônimo06:07:00

    Parece um conto, contado em versos. Uma história de amor, que, ao ser perdido, causou um enorme bem: o de descobrir que existe o mundo e que ele pode ser ensolarado sempre!
    Saramar, minha amiga, até um tantinho de humor eu percebi...no poema...
    Seu manejo com as palavras é sempre notável. Gosto muito!
    Beijos, beijos.
    (e beijo ao Léo).
    Dora

    ResponderExcluir
  5. Anônimo06:11:00

    Parece tão fáci, não é Saramar. Trocar as cortinas ou arrancá-las de uma vez... Um gesto apenas, que demoramos tanto pra fazer.
    Belíssimo poema de renascer de sol...
    Beijo
    Nydia

    ResponderExcluir
  6. Anônimo06:58:00

    Saramar

    O blog está muito bonito, coeso.
    Parabéns ao seu poema e ao Blog. Um show.

    parabéns
    Um abraço
    EdimoGinot

    ResponderExcluir
  7. Anônimo07:10:00

    Saramar

    O Blog está muito bonito. Um trabalho com classe enriquecido pelos seu poemas, é claro.
    um abraço
    EdimoGinot

    ResponderExcluir
  8. Anônimo13:30:00

    Parabéns Sara, me encantou a versatilidade. Versos diferentes e indignados

    ResponderExcluir

Não fazemos censura prévia mas os exageros serão deletados.