Brasigóis Felício



Morangos do mal

O poeta outsider
não teve culpa,
vergonha ou medo
quando leu naquele teste:
"HIV positivo".

Na terceira noite
após a decretação da Perda,
por auto-proteção, enlouqueceu.
A vida o habitava
e a ela se dava, e tanto,
e não soube que a dor
passeia no corpo
— sua morada e semente.

O poeta jamais imaginou
que a dor visitaria seu corpo
em traje de passeio completo.
A dor o visitou, toda garrida,
enquanto o poeta,
em seu leito de agonia,
contemplava os muros do cemitério
do outro lado da rua.

A vida o habitava. É culpa sua?
Tantas vozes, dentro da noite,
gritaram seu nome.

II

O poeta aceitou a queda
como a semente abandona
a sua casca imprestável.
O poeta mudou, embora
sendo o mesmo, tão diferente
Cazuza, sempre a "pedir piedade
pra essa gente careta e covarde".

Em sua última epístola
ao anjo Lúcifer, antes da Queda Abissal,
era mais um Ícaro, anjo solar,
do que um corpo caindo.
Até porque a Queda é Sempre
como o calmo desespero
dos que cantam no suplício.

"O que importa é a Senhora Vida
coberta de ouro e prata
e musgo do tempo" (1)

III

Aqui jaz Caio, o outsider
que se abismou no Ser.
Bêbado de lucidez e equilibrando-se
entre a queda e o movimento,
não quis mofar, como os morangos do
medo.
E preferiu a vertigem a apodrecer no
pântano.

Entre o Ser e o Nada,
o poeta gritou, em êxtase
e pavor, antes de ser vencido.

E o poeta pediu morangos silvestres,
ao despencar no Abismo.


(1) Caio Fernando Abreu
☼ Brasigóis é goiano.




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