Juan Liscano





SITUAÇÃO

Fez-se tarde.
A lucidez protege
da desolação.
Fez-se tarde
Para empreender a viagem
ao conhecimento libertador.
Se fez tarde.
Somos servos
dos artifícios inventados
por nós mesmos.
Servos de máquinas,
de imagens substitutivas
do mundo,
de caudais energéticos furtados
do cosmo.
Servos de máquinas,
Nos infecta o afã de poder,
a ânsia de dominar
sem o mérito.
No entanto... às vezes...
ouvimos chamadas truncadas,
Sobrevém a nostalgia inexplicável
do perdido sem haver tido,
do nunca vivido.
A multiplicidade afoga.
Pertencemos à multidão,
ao relativo, ao virtual,
ao ilusório.
No entanto...
escutamos, de repente,
fluir em nós o manancial secreto,
respiramos um súbito perfume,
percebemos, olhando as ondas,
a forças de alçar-se, de romper
e voltar a levantar-se intacto.
Buscar a pedra ardente,
seguir a árvore caminhante,
cantar as torres do vento
saturando-se de ramos pendentes!
Mas,
já não será tarde demais?



Imagem: Malcom Parr


3 comentários:

Sonia disse...

Gosto de poemas assim, que nos tocam bem na ferida.
Com certeza já é tarde.

Maravilhosa a imagem!

Léo Scartezzine disse...

Ou antes tarde do que nunca..rs.
Boa sugestão. Gosto de vir aqui e ler tudo devagar. Gosto deste cantinho...rs

darlene disse...

Nunca é tarde pra começar, esse é meu olhar.
A vida após algumas desscobertas fica mais bonita, clara. Provavelmente uma das virtudes da maturidade. Deixar de ter pressa, ser dono do tempo, correr sem saber para onde.
O bem vivido aplaca o tempo perdido, que, além de tudo não volta mais.
Acredito que sempre é tempo.